terça-feira, 27 de maio de 2008

MúsicasMúsicasMúsicasMúsicasMúsicasMúsicas


Uma de minha composições...muitas crianças do Brasil cantaram... fala de ecologia, de um novo jeito de se relacionar com os bichos e as plantas, numa relação de respeito à criação.

EU QUERO ÁGUA PRA BEBER
LIMPINHA, PURA, QUE PRAZER
ÁGUA BOA, ÁGUA BOA.

EU QUERO TERRA PRA PLANTAR
COMER DE TUDO QUE ELA DÁ
TERRA BOA, TERRA BOA

EU QUERO VIDA PRA VIVER
PRA MIM, PROS BICHOS, PRA VOCE
VIDA BOA, VIDA BOA.

POIS A ÁGUA, PLANTA, BICHO, FLOR
GENTE, FLORESTA E AMOR
SÃO ECOS DE UM NOVO VIVER,
VIVER COM DEUS.

A criminalização da pobreza pelo olhar do adolescente em situação de vulnerabilidade social


Esse trabalho foi fruto de pesquisa junto à adolescentes residentes no Morro dos Macacos - Vila Isabel, RJ, usuários do Projeto "Fala Sério", da Igreja Metodista naquele bairro, coordenado por mim durante o ano de 2007. Virou monografia de conclusão de curso de Serviço Social na UFRJ.
Você encontra o trabalho neste link: http://www.metodistavilaisabel.org.br/artigosepublicacoes/descricao.asp?n=4

CD do Projeto Fala Sério

Um processo de construção de cidadania: os adolescentos do projeto "Fala Sério" fizeram comigo as letras das músicas sobre as muitas fomes que todos temos... Registramos em estúdio esse momento ímpar na vida deles e também na minha.
Veja as letras na contra-capa.

.mo.men.tos.

Sempre as crianças!!! Uma visita ao IMAG, às crianças que ficam abrigadas.
Uma delícia esse dia! No meu colo, outra Rute.

.m.o.m.e.n.t.o.s.


meu melhor lado! são momentos de interação com as crianças,
falando de cidadania, de atenção ao outro/a, de solidariedade e da necessidade de construirmos junto/as um mundo mais legal!

Artigo: A MÃE DE ALANA

A dor é visível e absoluta. A foto no jornal não deixa dúvida. A mãe de Alana sofre, só, a morte da filha, apesar dos outros cinco filhos que ficaram para ela sustentar. Por que a vida é tão cruel? “Onde foi que eu errei?” Deve se perguntar. “Por que tanta tragédia e sofrimento de uma vez só? Logo ela, a filha mais velha, companheira de luta na dureza do trabalho realizado cotidianamente e que mesmo assim não garante o pão. Tantas bocas para alimentar, tantos desejos para administrar... Alana, 13 anos, era a parceira na caminhada cheia de pedras e cruzes que precisa ser trilhada.Uma bala atravessou o caminho de Alana. Uma bala. Quantas balas, caramelos e doces deve ter desejado Alana? Mas, exatamente, aquela fria, dura e mortal, que deixa gosto de sangue no peito, se ofereceu de forma invasiva e definitiva na vida de Alana.
Sua mãe não tem nome. È a “mãe de Alana”. Nome, pra ela, não importa. Afinal, a mídia perversa se alimenta de mães de Alana. Mulheres pobres, marginalizadas, selecionadas pela sociedade para ser escória, para ser nada, para ser um rosto cheio de dor na foto, mas sem nome.
Onde está o pai de Alana? Onde está aquele que também deveria chorar a morte da filha? Onde está aquele que deveria alimentar, com sua parceira, os tantos filhos que fez? Já terá morrido? Terá outros filhos com outra mulher, também sem nome?
A mãe de Alana parece destinada ao sofrimento. Nem passou a dor pela morte da filha, e seu irmão, 25 anos, trabalhador, pai de sete filhos, ao voltar da maternidade para ver a companheira e conhecer a filha recém- nascida, é confundido com um traficante por causa da mochila que carregava e morreu covardemente assassinado. Em sua mochila carregava maçãs...
Agora, a mãe de Alana tem mais sete filhos, além dos cinco que pariu, para criar, consolar e alimentar.
Sonhos? Pergunta o repórter inoportunamente. “Moço, quem mora no morro não tem sonho”, responde a mulher atormentada e perdida entre tanta dor.
Quem vai socorrer a mãe de Alana? Quem vai consolá-la? Quem vai caminhar com ela essa estrada obstaculizada pela dor e desesperança?
Será destino? Que destino que nada! É a injustiça, a concentração de renda, a corrupção, o poder da indústria armamentista e o sistema capitalista vil, que deixaram a mãe de Alana sem sonhos.
É a discriminação, o estigma da pobreza que criminaliza os pobres, é a marginalização que deixa a mãe de Alana a balançar seu corpo freneticamente, para frente e para trás, numa atitude típica de quem está fora de seu eixo em função da dor, do trauma sofrido.
Quantas Alanas ainda morrerão? Quantas mães de Alanas chorarão suas perdas e suas dores, alargadas pela miséria, violência e desesperança?
Quem aceita socorrer a mãe de Alana? Que juiz ou desembargador aceita doar para ela um só maço dos muitos dólares guardados a sete chaves, arrecadados na corrupção?
Que governador aceita governar de fato, não como se ainda estivesse em campanha eleitoral, para estabelecer políticas públicas que atendam, efetivamente, as necessidades mais elementares do povo lesado pelas (in)diferenças sociais?
Cesta básica? Cheque-cidadão? Vale-gás? E a vida de Alana? E a mãe da Alana? Vale? Vale pra quem, vale o quê? Mulher, negra, favelada e só. Nem sua beleza ajuda, não vale nada.
Quantas mulheres neste momento não choram suas dores? Quantas perderam seus filhos? Quantas estarão sofrendo violência física, sexual ou psicológica, praticada por seus maridos, companheiros ou patrões? Quantas estarão esvaziadas de seus sonhos como a mãe da Alana?
Edna. Edna Ezequiel. Este é o nome da mãe de Alana. Edna, sua dor também é minha. Não sei o que é perder um filho, mas choro com você, choro ao ver sua foto nos jornais.
Sabe, eu tenho muitos sonhos e desejos. O mais forte, agora, é encontrá-la, abraçar você e lhe dizer que você pode contar comigo. Vamos lutar juntas para que a injustiça acabe e que a sua dignidade seja reencontrada mesmo com tanta tristeza e perda.
Também não tenho dado conta de muitas coisas, mas sei que se a gente se unir, a caminhada pode ficar menos pesada e a gente pode transformar a nossa cruz em asa delta, para voarmos vôos prazerosos e plenos de esperança.
Ofereço a você minha solidariedade de mulher só, que sustenta um lar e cria filho com muita luta, sem ter com quem dividir tamanho peso.
Mas o que é a minha luta diante da sua? O que é a minha dor diante da sua dor? Fico envergonhada de sugerir que sofro, que tenho dificuldades as mais diversas, diante da sua realidade, diante do seu penar.
Por isso, conte comigo!! No que depender de mim, vou continuar incomodando, protestando, denunciando e continuar lutando por um mundo melhor para nós, mulheres, que ainda sofremos discriminação, que ainda recebemos salário inferior ao do homem, mesmo fazendo trabalho igual; que ainda somos coisificadas e exploradas porque somos mulheres.
Meu abraço, meu choro junto com o seu; desejo-lhe força, fé e esperança nessa sua caminhada. Junte todos os caquinhos espalhados e faça um belo vitral. E não se esqueça, aconteça o que acontecer, Deus é com você, por mais paradoxal que seja.
Sua companheira de luta, Rute Noemi.


* Alana era uma menina de 13 anos, moradora do Morro dos Macacos, Vila Isabel, RJ, assassinada pela guerra entre tráfico e polícia, quando levava sua irmã para a creche.

Rio de Janeiro, maio de 2007.


Artigo: "Vá se queixar ao bispo!"


Esse deve ter sido um bom tempo, quando as pessoas tinham acesso à autoridade espiritual constituída, confiando que suas questões, queixas e queixumes seriam ouvidas, quando os bispos eram figuras acima de qualquer suspeita e tinham tempo e disposição de ouvir as pessoas e interagir com elas.
Hoje, o episcopado perdeu sua mística. Há bispos dando show e vexame na TV, com suas esposas “lindas e louras”, esvaziados e repetitivos em suas teses mentirosas sobre prosperidade; há bispos acusados de pedofilia, sem receber qualquer punição, e há outros eleitos em concílios de forma ilegítima e duvidosa... Pobres dos bispos ou pobres de nós que não temos mais a quem nos queixar!
Ironias à parte (o escritor Lima Barreto diz que “ironia vem da dor”), como seria bom se a comunidade de fé pudesse ser ouvida pelo/a bispo/a. Não para balir seus queixumes de ovelhas medrosas e inseguras que não enxergam um palmo à frente do nariz, mas para ser ouvida!
Como seria bom que os/as bispos/as pudessem ouvir o que as ovelhas pensam deles e de seus mandatos, às vezes exercidos sob uma autoridade religiosamente imposta, mas sem legitimidade.
Resgatando minha memória afetiva, lembro da emoção que sentia quando meu pai, pastor e servo, recebia em nossa casa/igreja algum bispo. Minha ingenuidade de criança se inquietava diante daquela presença impoluta.
Mas lembro-me também que, aos 10 anos, disse não ao ser convocada pela direção da escola para ser a oradora na recepção ao bispo católico da cidade que visitaria nosso colégio. Algo em mim não aceitava tal pompa. Percebo que desde pequena, sempre fui refratária ao poder. Desde cedo, percebi que o bispo, ôpa, o rei está nu!
Hoje, não sinto mais aquela emoção pueril. Meus sentimentos são outros. E minha concepção de poder também é outra. O poder exercido pelo homem, branco e adulto, é um poder opressivo, corrupto e mentiroso. Dessa sou contra sempre! Prefiro continuar a boba da corte, sonhando e construindo com as crianças, adolescentes e as mulheres um jeito mais humano e conseqüentemente divino de poder.
Um poder onde todos sejamos sujeitos na construção do Reino e não apenas massa de manobra.
Por isso, me atrevo a dizer: bispos/as, ouçam o balido de suas ovelhas Não abandonem a possibilidade de experimentar uma prática de mandato mais perto do povo, das ovelhas. E não percam a capacidade de fazer autocrítica.
Posso afirmar que o povo quer ser ouvido e, mais do que isso, quer contribuir no processo, quer dizer e opinar.
Só que o nosso jeito conciliar de ser, tem sido vilipendiado por pastores (sorry, bons pastores!) ensandecidos por bons salários e principalmente por poder. E é aí que fica o hiato: falar para quem, denunciar os desmandos a quem?
Por que não criamos em nossa Igreja uma ouvidoria? Não burocratizada, que atravessa gabinetes e trâmites processuais morosos e institucionalizados, mas onde o/a mediador/a acolha e ouça efetivamente aquele/a que traz a queixa, que leve até o/a bispo/a e que responda ao que queixou.
Até a lógica mercantilista já se rendeu a essa prática cidadã. Por que nós não podemos encaminhar aos bispos nossas queixas e contribuições?
Tenho certeza de que seremos mais felizes como Igreja. Saber que nossa voz tem ressonância é um processo pedagógico rico e transformador, porque implica em troca e responsabilidade. Aí o poder é exercido como verbo: eu falo, ouço, reflito e ajo na perspectiva de fazer diferente da prática que me fez falar!
Será um grande salto. Poder “se queixar ao bispo/a” é direito e responsabilidade de todo metodista que quer ver a nossa igreja curada do surto de esquizofrenia que se abateu sobre nós.
O profeta Isaías há muito nos diz para que apresentemos nossas razões, que levemos nossas demandas a Deus (Is 41.21). Que bom: O nosso Deus nos ouve e nos responde. Ele, o Senhor dos senhores ouve nossas demandas e razões!
Bispos/as, ouçam suas ovelhas. Sem corporativismo, sem excesso de institucionalidade; ouçam e respondam. Nossa igreja não será mais a mesma, nem os seus mandatos!
As ovelhas podem até não balir, mas só em saber que tem o/a bispo/a para se queixar, já será um grande alento.
Então, ouvidoria já! E de preferência uma mulher para tal função. A saúde de nossa igreja agradece e as ovelhas também.

Rio de Janeiro, junho de 2007.

Artigo: É TEMPO DE TRANSGREDIR

A poeta mineira Adélia Prado diz que “... quem entende a linguagem, entende a Deus”. A Bíblia testifica isso: “...o verbo estava com Deus, o verbo era Deus”.
Fico imaginando que Deus deve se alimentar de palavras... Quais serão as palavras favoritas de Deus? Qual é o seu paladar? “A linguagem de Deus é o seu amor”, diz a Adélia.
Há palavras que têm um peso, um ranço, às vezes injusto, porque não lhes damos a possibilidade de fluir livremente, para que se transformem em ações que podem mudar nossas vidas, se formos além do que elas sugerem.
Eu gosto muito da palavra TRANSGREDIR! No velho e bom dicionário encontramos seu significado: desobedecer a, deixar de cumprir, infringir, violar, postergar. Sinônimos fortes para uma palavra forte. Mas lá também encontramos que transgredir é PASSAR ALÉM DE, ATRAVESSAR!
Que bom que as palavras também são transgressoras. Elas nos indicam mais do que aquilo que estamos acostumados. Transgredir é violar, mas é também avançar, passar além de.
Isso sugere que devemos ser transgressivos em nossa maneira de ver o mundo, de ver as coisas. Precisamos ir “além de”, precisamos enxergar mais profundo aquilo que parece ser.
A Bíblia está repleta de homens e mulheres transgressores. Moisés deveria ser morto ao nascer, mas, por uma atitude transgressora de sua mãe, foi morar no palácio do faraó que tinha ordenado sua morte e de todas as crianças hebréias, e, depois de adulto, não aceitou a opressão desse poder;
A rainha Vasti se negou a ser objeto nas mãos do rei, seu marido, e lhe disse não. Perdeu o trono, mas manteve a dignidade e propiciou que Ester fizesse um “reinado” político, defendendo seu povo da morte.
Davi comeu e dividiu com seus homens o pão da proposição que só era tocado pelos sacerdotes, e Deus não o puniu por isso. A fome era maior do que a lei.
A mulher sunamita não aceitou intermediário (o servo), para salvar seu filho... Foi direto a Elizeu e o forçou a ir com ela nessa missão.
A mulher que sangrava por doze anos, ousou tocar nas vestes de Jesus, para ser curada, indo além das normas da época, que a consideravam imunda em sua condição, pois sua dor e a sua fé eram maiores do que a Lei.
Há muitos outros exemplos na Bíblia de atitudes transgressivas, sempre e principalmente vindas do povo. A história da humanidade, vista sob a ótica do povo, dos vencidos, é uma história transgressiva. A caminhada do povo judeu é um ótimo exemplo: sair do jugo, ir além da opressão de faraó, buscar novas terras, novas possibilidades para viver com dignidade.
Sinto que os dias são de mediocridade; eles não me agradam. Os governantes governam para os seus; os pastores, cada vez mais pragmáticos no papel de “ungidos do Senhor”, defendem a institucionalidade que os mantém no poder e com seus bons salários; os bispos e apóstolos afastados das práticas do coração, da ternura e da busca da humanidade plena e redimida como quer Jesus, assumem um papel de alter-ego institucional: são inatingíveis e estão acima de qualquer avaliação e já não fazem mais autocrítica.
Não será tempo de irmos além? Não será tempo de quebrar o jugo da mediocridade e ver as coisas de forma mais profunda? Talvez devamos problematizar (não criar problemas!) as coisas que se mostram fáceis e acabadas, para percebermos outros jeitos mais humanos e mais ternos de caminhar e, principalmente, para vermos que Deus se esconde no simples, na terra, no pé no chão...
Mas é preciso transgredir. É preciso ir além. E isso só acontece se resgatarmos nossa sensibilidade e a nossa esperança em um novo céu e uma nova terra com valores que vão além dos que temos vivenciado.
Precisamos deixar de ser hipocritamente obedientes, para descobrirmos que o poder é substantivo, mas também é verbo: eu posso, tu podes, nós podemos tudo naquele que nos fortalece!
Precisamos, como as crianças, resgatar os “porquês”... Porque, senão, seremos manipulados por falsos líderes que, em nome de Deus, anunciam verdades mentirosas que conduzem o rebanho ao abismo.
Precisamos ousar em nossa pequena fé. Entender que, mesmo pequena, ela nos ajudará a transportar montes, a fazer história. O povo de Deus é quem faz história. Não são os reis nem os sacerdotes. É o povo que exercita sua busca e segue na esperança.
Sejamos, então, docemente transgressivos. Vamos além, vamos passar o rio! Vamos vivenciar novas possibilidades e um jeito novo de escrever a história. Vamos deixar que o amor de Cristo seja, efetivamente, o árbitro em nossos corações e em nossas relações, porque, do contrário, continuaremos achando que transgredir é só violar a lei e aí não faremos a passagem, não iremos além, e perderemos a possibilidade de vivenciar momentos novos, feitos de busca e dor, mas também de alegria por sermos sujeitos desse novo caminhar.
Deus nos chama para que resgatemos a nossa história, nos definamos diante dele e sigamos na construção do Reino, onde a justiça e o amor serão corriqueiros. Vamos juntos?
“Que a misericórdia, a paz e o amor nos sejam multiplicados”.

Rio de Janeiro, dezembro 2006.