Esse deve ter sido um bom tempo, quando as pessoas tinham acesso à autoridade espiritual constituída, confiando que suas questões, queixas e queixumes seriam ouvidas, quando os bispos eram figuras acima de qualquer suspeita e tinham tempo e disposição de ouvir as pessoas e interagir com elas.
Hoje, o episcopado perdeu sua mística. Há bispos dando show e vexame na TV, com suas esposas “lindas e louras”, esvaziados e repetitivos em suas teses mentirosas sobre prosperidade; há bispos acusados de pedofilia, sem receber qualquer punição, e há outros eleitos em concílios de forma ilegítima e duvidosa... Pobres dos bispos ou pobres de nós que não temos mais a quem nos queixar!
Ironias à parte (o escritor Lima Barreto diz que “ironia vem da dor”), como seria bom se a comunidade de fé pudesse ser ouvida pelo/a bispo/a. Não para balir seus queixumes de ovelhas medrosas e inseguras que não enxergam um palmo à frente do nariz, mas para ser ouvida!
Como seria bom que os/as bispos/as pudessem ouvir o que as ovelhas pensam deles e de seus mandatos, às vezes exercidos sob uma autoridade religiosamente imposta, mas sem legitimidade.
Resgatando minha memória afetiva, lembro da emoção que sentia quando meu pai, pastor e servo, recebia em nossa casa/igreja algum bispo. Minha ingenuidade de criança se inquietava diante daquela presença impoluta.
Mas lembro-me também que, aos 10 anos, disse não ao ser convocada pela direção da escola para ser a oradora na recepção ao bispo católico da cidade que visitaria nosso colégio. Algo em mim não aceitava tal pompa. Percebo que desde pequena, sempre fui refratária ao poder. Desde cedo, percebi que o bispo, ôpa, o rei está nu!
Hoje, não sinto mais aquela emoção pueril. Meus sentimentos são outros. E minha concepção de poder também é outra. O poder exercido pelo homem, branco e adulto, é um poder opressivo, corrupto e mentiroso. Dessa sou contra sempre! Prefiro continuar a boba da corte, sonhando e construindo com as crianças, adolescentes e as mulheres um jeito mais humano e conseqüentemente divino de poder.
Um poder onde todos sejamos sujeitos na construção do Reino e não apenas massa de manobra.
Por isso, me atrevo a dizer: bispos/as, ouçam o balido de suas ovelhas Não abandonem a possibilidade de experimentar uma prática de mandato mais perto do povo, das ovelhas. E não percam a capacidade de fazer autocrítica.
Posso afirmar que o povo quer ser ouvido e, mais do que isso, quer contribuir no processo, quer dizer e opinar.
Só que o nosso jeito conciliar de ser, tem sido vilipendiado por pastores (sorry, bons pastores!) ensandecidos por bons salários e principalmente por poder. E é aí que fica o hiato: falar para quem, denunciar os desmandos a quem?
Por que não criamos em nossa Igreja uma ouvidoria? Não burocratizada, que atravessa gabinetes e trâmites processuais morosos e institucionalizados, mas onde o/a mediador/a acolha e ouça efetivamente aquele/a que traz a queixa, que leve até o/a bispo/a e que responda ao que queixou.
Até a lógica mercantilista já se rendeu a essa prática cidadã. Por que nós não podemos encaminhar aos bispos nossas queixas e contribuições?
Tenho certeza de que seremos mais felizes como Igreja. Saber que nossa voz tem ressonância é um processo pedagógico rico e transformador, porque implica em troca e responsabilidade. Aí o poder é exercido como verbo: eu falo, ouço, reflito e ajo na perspectiva de fazer diferente da prática que me fez falar!
Será um grande salto. Poder “se queixar ao bispo/a” é direito e responsabilidade de todo metodista que quer ver a nossa igreja curada do surto de esquizofrenia que se abateu sobre nós.
O profeta Isaías há muito nos diz para que apresentemos nossas razões, que levemos nossas demandas a Deus (Is 41.21). Que bom: O nosso Deus nos ouve e nos responde. Ele, o Senhor dos senhores ouve nossas demandas e razões!
Bispos/as, ouçam suas ovelhas. Sem corporativismo, sem excesso de institucionalidade; ouçam e respondam. Nossa igreja não será mais a mesma, nem os seus mandatos!
As ovelhas podem até não balir, mas só em saber que tem o/a bispo/a para se queixar, já será um grande alento.
Então, ouvidoria já! E de preferência uma mulher para tal função. A saúde de nossa igreja agradece e as ovelhas também.
Rio de Janeiro, junho de 2007.