sábado, 30 de janeiro de 2010

Comida de mãe

Devo dizer que minha mãe cozinhava mal! Sempre tive a impressão de que ela não nasceu para a vida de forno e fogão. Entre o piano e o fogão, ela se saía melhor no piano.
Mas sei lá porque, ela fazia um pudim de beterraba inesquecível. É isso mesmo, pudim de beterraba. O que leva uma mãe a fazer pudim de beterraba e ser esse o seu melhor prato?
Quando ele aparecia (o que não era constante), todos (seis irmãos) devorávamos o pudim com um prazer... Sorvíamos cada pedaço, cada pingo de calda com total reverência à iguaria e com a absoluta certeza: nossa mãe nos ama!

POEMA DO MENINO JESUS - Fernando Pessoa


No meio dia de fim de primavera eu tive um sonho como uma fotografia: eu vi Jesus Cristo descer a terra. Ele veio pela encosta de um monte, mas era outra vez menino a correr e a rolar-se pela erva, a arrancar flores para deitar fora e a rir de modo a ouvir-se de longe.
Ele tinha fugido do céu. Era nosso demais para fingir de segunda pessoa da trindade.
Um dia que Deus estava dormindo e o Espírito Santo andava a voar, ele foi até a caixa dos milagres e roubou três: com o primeiro ele fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido; com o segundo, ele se criou eternamente humano e menino e com o terceiro, ele criou um cristo eternamente na cruz e deixou-o pregado na cruz que há no céu e serve de modelo às outras.
Depois ele fugiu para o sol e desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje ele vive na minha aldeia comigo. É uma criança bonita, de riso natural; limpa o nariz com o braço direito; chapinha nas poças d’água; colhe as flores, gosta delas e esquece; atira pedras aos burros; colhe as frutas nos pomares e foge a chorar e a gritar dos cães.
Só porque sabe que elas não gostam e toda gente acha graça, ele corre atrás das raparigas que levam bilhas na cabeça e levanta-lhe as saias.
A mim ele me ensinou tudo. Ele me aponta todas as cores que há nas flores; me mostra como as pedras são engraçadas quando a gente as tem nas mãos e olha devagar para elas.
Damo-nos tão bem um com o outro, na companhia de tudo que nunca pensamos um do outro. Vivemos juntos os dois com um acordo íntimo, como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer nós brincamos: as cinco pedrinhas no degrau da porta de casa; graves, como convém a um deus e a um poeta. Como se cada pedra fosse todo o universo e fosse por isso um perigo muito grande deixá-la cair no chão.
Depois eu lhe conto estórias das coisas só dos homens. Ele sorri porque tudo é incrível; ele ri dos reis e dos que não são reis e tem pena de ouvir falar das guerras e dos comércios.
Depois ele adormece e eu o levo no colo para dentro da minha casa, deito-o na minha cama despindo-o lentamente, como seguindo um ritual todo humano e todo materno, até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma. Às vezes ele acorda de noite e brinca com meus sonhos. Viramos de pernas pro ar, põe um por cima do outro e bate palmas sozinho, sorrindo para o meu sonho.
Quando eu morrer, filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu, no colo e leva-me para dentro da tua casa, deita-me na tua cama, despe o meu ser cansado e humano; conta-me estórias, caso eu acorde, para eu tornar a adormecer e dá-me sonhos teus para eu brincar.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A Maldição Branca - Eduardo Galeano*


No primeiro dia deste ano a liberdade completou dois séculos de vida
no mundo. Ninguém se inteirou disso, ou quase ninguém. Poucos dias
depois, o país do aniversário, Haiti, passou a ocupar algum espaço nos
meios de comunicação; não pelo aniversário da liberdade universal, mas
porque ali se desatou um banho de sangue que acabou derrubando o
presidente Aristide.


O Haiti foi o primeiro país onde se aboliu a escravidão. Contudo, as
enciclopédias mais conhecidas e quase todos os livros de escola
atribuem à Inglaterra essa histórica honra. É verdade que certo dia o
império que fora campeão mundial do tráfico negreiro mudou de idéia;
mas a abolição britânica ocorreu em 1807, três anos depois da
revolução haitiana, e resultou tão pouco convincente que em 1832 a
Inglaterra teve de voltar a proibir a escravidão.


Nada tem de novo o menosprezo pelo Haiti. Há dois séculos, sofre
desprezo e castigo. Thomas Jefferson, prócer da liberdade e dono de
escravos, advertia que o Haiti dava o mau exemplo, e dizia que se
deveria "confinar a peste nessa ilha". Seu país o ouviu. Os Estados
Unidos demoraram 60 anos para reconhecer diplomaticamente a mais livre
das nações. Por outro lado, no Brasil chamava-se de haitianismo a
desordem e a violência.. Os donos dos braços negros se salvaram do
haitianismo até 1888. Nesse ano o Brasil aboliu a escravidão. Foi o
último país do mundo a fazê-lo.


O Haiti voltou a ser um país invisível, até a próxima carnificina.
Enquanto esteve nas TVs e nas páginas dos jornais, no início deste
ano, os meios de comunicação transmitiram confusão e violência e
confirmaram que os haitianos nasceram para fazer bem o mal e para
fazer mal o bem. Desde a revolução até hoje, o Haiti só foi capaz de
oferecer tragédias. Era uma colônia próspera e feliz e agora é a nação
mais pobre do hemisfério ocidental. As revoluções, concluíram alguns
especialistas, levam ao abismo. E alguns disseram, e outros sugeriram,
que a tendência haitiana ao fratricídio provém da selvagem herança da
África. O mandato dos ancestrais. A maldição negra, que empurra para o
crime e o caos.


Da maldição branca não se falou.


A Revolução Francesa havia eliminado a escravidão, mas Napoleão a ressuscitara:


- Qual foi o regime mais próspero para as colônias?


- O anterior.


- Pois, que seja restabelecido.


E, para substituir a escravidão no Haiti, enviou mais de 50 navios
cheios de soldados. Os negros rebelados venceram a França e
conquistaram a independência nacional e a libertação dos escravos.


Em 1804, herdaram uma terra arrasada pelas devastadoras plantações de
cana-de-açúcar e um país queimado pela guerra feroz. E herdaram "a
dívida francesa". A França cobrou caro a humilhação imposta a Napoleão
Bonaparte. Recém-nascido, o Haiti teve de se comprometer a pagar uma
indenização gigantesca, pelo prejuízo causado ao se libertar. Essa
expiação do pecado da liberdade lhe custou 150 milhões de
francos-ouro. O novo país nasceu estrangulado por essa corda presa no
pescoço: uma fortuna que atualmente equivaleria a US$ 21,7 bilhões ou
a 44 orçamentos totais do Haiti atualmente. Muito mais de um século
demorou para pagar a dívida, que os juros multiplicavam. Em 1938, por
fim, houve a redenção final.


Nessa época, o Haiti já pertencia aos brancos dos Estados Unidos.


Em troca dessa dinheirama, a França reconheceu oficialmente a nova
nação. Nenhum outro país a reconheceu. O Haiti nasceu condenado à
solidão. Tampouco Simon Bolívar a reconheceu, embora lhe devesse tudo.
Barcos, armas e soldados lhe foram dados pelo Haiti em 1816, quando
Bolívar chegou à ilha, derrotado, e pediu apoio e ajuda. O Haiti lhe
deu tudo, com a única condição de que libertasse os escravos, uma
idéia que até então não lhe havia ocorrido. Depois, o herói venceu sua
guerra de independência e expressou sua gratidão enviando a
Port-au-Prince uma espada de presente. Sobre reconhecimento, nem uma palavra.


Na realidade, as colônias espanholas que passaram a ser países
independentes continuavam tendo escravos, embora algumas também
tivessem leis que os proibia. Bolívar decretou a sua em 1821, mas, na
realidade, não se deu por inteirada. Trinta anos depois, em 1851, a
Colômbia aboliu a escravidão, e a Venezuela em 1854.


Em 1915, os fuzileiros navais desembarcaram no Haiti. Ficaram 19 anos.
A primeira coisa que fizeram foi ocupar a alfândega e o escritório de
arrecadação de impostos. O exército de ocupação reteve o salário do
presidente haitiano até que este assinasse a liquidação do Banco da
Nação, que se converteu em sucursal do City Bank de Nova York. O
presidente e todos os demais negros tinham a entrada proibida nos
hotéis, restaurantes e clubes exclusivos do poder estrangeiro. Os
ocupantes não se atreveram a restabelecer a escravidão, mas impuseram
o trabalho forçado para as obras públicas.


E mataram muito. Não foi fácil apagar os fogos da resistência. O chefe
guerrilheiro Charlemagne Péralte, pregado em cruz contra uma porta,
foi exibido, para escárnio, em praça pública.


A missão civilizadora terminou em 1934. Os ocupantes se retiraram
deixando no país uma Guarda Nacional, fabricada por eles, para
exterminar qualquer possível assomo de democracia. O mesmo fizeram na
Nicarágua e na República Dominicana. Algum tempo depois, Duvalier foi
o equivalente haitiano de Somoza e Trujillo.


E, assim, de ditadura em ditadura, de promessa em traição, foram
somando-se as desventuras e os anos. Aristide, o cura rebelde, chegou
à presidência em 1991. Durou poucos meses. O governo dos Estados
Unidos ajudou a derrubá-lo, o levou, o submeteu a tratamento e, uma
vez reciclado, o devolveu, nos braços dos fuzileiros navais, à
Presidência. E novamente ajudou a derrubá-lo, neste ano de 2004, e
outra vez houve matança. E de novo os fuzileiros, que sempre
regressam, como a gripe.


Entretanto, os especialistas internacionais são muito mais
devastadores do que as tropas invasoras. País submisso às ordens do
Banco Mundial e do Fundo Monetário, o Haiti havia obedecido suas
instruções sem pestanejar. Eles o pagaram negando-lhe o pão e o sal.


Teve seus créditos congelados, apesar de ter desmantelado o Estado e
liquidado todas as tarifas alfandegárias e subsídios que protegiam a
produção nacional. Os camponeses plantadores de arroz, que eram a
maioria, se converteram em mendigos ou emigrantes em balsas. Muitos
foram e continuam indo parar nas profundezas do Mar do Caribe, mas
esses náufragos não são cubanos e raras vezes aparecem nos jornais.


Agora, o Haiti importa todo seu arroz dos Estados Unidos, onde os
especialistas internacionais, que é um pessoal bastante distraído, se
esquecem de proibir as tarifas alfandegárias e os subsídios que
protegem a produção nacional.


Na fronteira onde termina a República Dominicana e começa o Haiti, há
um cartaz que adverte: o mau passo.


Do outro lado está o inferno negro. Sangue e fome, miséria, pestesŠ


Nesse inferno tão temido, todos são escultores. Os haitianos têm o
costume de recolher latas e ferro velho e, com antiga maestria,
recortando e martelando, suas mãos criam maravilhas que são oferecidas
nos mercados populares.


O Haiti é um país jogado no lixo, por eterno castigo à sua dignidade.
Ali jaz, como se fosse sucata. Espera as mãos de sua gente.
(IPS/Envolverde)


*Eduardo Galeano é escritor e jornalista uruguaio, autor de "As Veias
Abertas da América Latina" e "Memórias do Fogo"*

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

NADA É IMPOSSÍVEL DE MUDAR (Bertold Brecht)


  Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.

sábado, 23 de janeiro de 2010

EVA - Luiz Fernando Veríssimo


 Na velha questão sobre a origem da humanidade, eu defendo o meio termo. Um empate entre Darwin e Deus. Aceito a tese darwiniana de que o homem descende do macaco, mas acho que Deus criou a mulher. E nós somos a conseqüência daquele momento mágico em que o proto-homem, deslocando-se de galho em galho pela floresta primeva, chegou na planície de Éden e viu a mulher pela primeira vez.
Imagine a cena. O homem-macaco de boca aberta, escondido pela folhagem, olhando aquela maravilha: uma mulher recém-feita. Como Vênus recém-pintada por Botticelli, com a tinta fresca. Eva espreguiçando-se à beira do Tigre. Ou era Eufrates? Enfim, Eva no seu jardim, ainda úmida da criação. Eva esfregando os olhos. Eva examinando o próprio corpo. Eva retorcendo-se para olhar para trás e alisando as próprias ancas, satisfeita. Eva olhando-se no rio, ajeitando os longos cabelos, depois sorrindo para a própria imagem. Seus dentes perfeitos faiscando ao sol do Paraíso. E o quase-homem babando no seu galho. E, com muito esforço, formulando um pensamento no seu cérebro primitivo. “Fêmea é isso, não aquela macaca que eu tenho em casa”.
Há controvérsias a respeito, mas os teólogos acreditam que quando Eva foi criada por Deus tinha entre 19 e 23 anos. E ela reinou sozinha no Paraíso por duas luas. E, instruída por Deus, deu nome às coisas e aos bichos. E chamou o rio de rio e a grama de grama, e a árvore de árvore, e aquele estranho ser que desceu da árvore e ficou olhando para ela como um cachorro, de homem. E quando o homem sugeriu que coabitassem no Paraíso e começassem oura espécie, Eva riu, concordou só para ter o que fazer, mas disse que ele ainda precisaria evoluir muito para chegar aos pés dela.
E desde então temos tentado. Ninguém pode dizer que não temos tentado.

ALEXANDRE - Bráulia Ribeiro*


Conhecíamos Alexandre há mais de cinco anos. Chegou com vinte e poucos, com o cérebro já detonado pelo crack. Durante o curso de discipulado foi alcançando coerência, e ao fim de seis meses, voltou à sua casa para fazer vestibular, ciente do que queria: ser piloto missionário. Terminou o ensino médio, inspirou o pai a estudar e fizeram vestibular juntos. O pai passou em direito. Alexandre, ainda tratando de ser lúcido, não.
Vieram outras crises; a razão saía por uma fresta da janela, ficava uma algaravia religiosa indecifrável. Nas crises, ele nos visitava para longas conversas. Nunca foi mau o rapaz. Eu sempre lhe sabia gentil, apesar das incoerências. Meu marido tinha ouvidos para lhe decifrar as angústias no meio da verborragia. Aconselhava, ouvia.
Nos últimos meses, Alexandre começou a observar minha filha que se tornava menina moça e a notar-lhe a beleza florescendo. Ligava às três da manhã falando da menina que vira no balanço, de suas amiguinhas, do toque puro que lhe deu na perna, de como deus ama os anjos. Meu instinto de mãe se põe de guarda. Aviso às coleguinhas e, quando Alexandre vem, eu o acompanho ao redor da floresta que circunda a comunidade.
Na terça-feira a bicicleta com adesivo Yokohama para na minha porta. Nesse dia Reinaldo está com pressa. Explica pro Alexandre:
- tô de saída. Tenho reunião com pastores na cidade. O rapaz insiste, mais transtornado que nunca na esperança absurda que tem em Reinaldo.
-Você é meu pai, meu pastor, eu preciso de você.
Reinaldo começa a se irritar. Explica que não dá. Alexandre implora.
- Deixa eu voltar pra viver aqui com vocês.
- como, você se droga, anda por aqui observando nossas crianças e me liga de madrugada falando nelas. Como posso confiar pra te deixar morar aqui?
- Não vou fazer nada com elas, só quero ser como elas, nascer de novo numa família de deus, Reinaldo. Eu quero ser de Deus e não sei como, será que elas me ajudam?
- Hoje não posso. Tô atrasado demais. Olha, já fizemos tudo o que podíamos por você. Agora acabou.
- Como acabou? Não acaba não, olha.
E mostrou um rolo de papel higiênico que tinha nas mãos.
Reinaldo se irritou com aquele rolo – me contou depois -, mesmo assim segurou a ponta enquanto o menino desenrolava lentamente tirando de dentro uma Bíblia pequena amarfanhada, para ler o Salmo 136.
- Olha o que a Bíblia fala: “Rendei graças ao Senhor, porque seu amor dura para sempre”.
E assim foi lendo parado no sol quente ao lado do carro o Salmo todo, enquanto Reinaldo tentava lhe dizer que estava atrasado, que era pastor, que conhecia a Bíblia, que voltasse depois ou nem isto.
Foi-se o pastor pra reunião e o garoto em desespero para a estrada quente de bicicleta. Reinaldo disse que ainda o viu quando voltava, pedalando, percebendo o carro, mas nem o parou de novo como seria seu costume. Virou o rosto como se dissesse: “olhe, você, meu pastor, falhou, me trocou por uma reunião, não me ouviu, deixou que seu amor acabasse, sendo que o amor de Deus nunca acaba”.
Acabou também naquela tarde a história de Alexandre e sua busca por Deus. Na manhã seguinte sua irmã nos ligou, chamando para o velório.
O rapaz se matou na tarde anterior nas rodas de uma carreta de carga depois de duas outras tentativas.
Choramos eu e o Reinaldo muitas lágrimas de angústia, desespero e culpa, e ainda choro enquanto escrevo isto. Por nós, e por todos os Alexandres da vida que encontram na rua os levitas e não os samaritanos.
*Bráulia Ribeiro é missionária em Porto velho, RO. (Texto publicado na Revista Ultimato nº320/ 2009)

O DIA EM QUE BEIJEI RUBEM ALVES

                                               

Adélia Prado mais uma vez tem razão! Ela diz, apropriando-se de uma visão taoista: “Tomai cuidado, vossas fantasias se cumprem”. E uma das minhas muitas fantasias se cumpriu: Beijei o Rubem Alves! Não foi um beijo cinematográfico, mas arrebatou-me porque veio somado a diversas reminiscências afetivas e à percepção de que as coisas estão aí para acontecer, e quando elas chegam, devem ser vividas em sua plenitude.
A cena era mais ou menos essa: seminário internacional, teólogos mundialmente conhecidos e entre eles, o Rubem Alves. Precisava vê-lo mais de perto, precisava mostrar-lhe o meu apreço, e mais que isso, precisava dizer-lhe que tínhamos algo em comum além da paixão pela Adélia Prado. Mas como odeio tietagem, odeio alimentar estrelismo (até porque gente é pra brilhar, independentemente de quem seja), fiquei bem quietinha esperando a minha hora.
Depois da conferência saí de cena, pois o palco ficou cheio de gente à cata de fotos e autógrafos. Mas fiquei pensando que deveria me aproximar do Rubem, já que aquele espaço que me é tão familiar e onde já tinha vivido alguns momentos ímpares, seria propício para encontrar-me com ele e sentia, de maneira avassaladora, que aquele era o dia.
Resolvi voltar e fiquei observando o movimento. De repente, saiu do meio daquela pequena multidão e, melhor ainda, sozinho, aquele que iria proporcionar o cumprimento de uma de minhas fantasias. Saí atrás dele certa de que ninguém me observava (todos os olhares se voltavam para o grande convidado da noite) e chamei o seu nome.
Ele olhou para mim com um olhar meio desconfiado, olhar de estrela (ele tem um pouco isso, o que acho feio e desnecessário, mas isso é problema dele). Mas eu sabia o que estava fazendo ali. Olhei-o nos olhos e com ar maroto lhe perguntei de pronto: -“Você quer casar comigo?”
Por um segundo ele ficou meio que sem ação com a minha pergunta. Mas se recompôs e me respondeu também brincando, e iniciamos assim, um diálogo.
Disse-lhe então a frase que seria o nosso elo: -“temos alguém em comum. Sou ex-companheira do João Pedro de Aguiar. Nesse momento seus olhos brilharam. Sim, ele conhecia o João Pedro de Aguiar. Tanto, e eram tão queridos, que quando o João Pedro faleceu, o Rubem o plantou em seu pomar (explico: Toda pessoa querida do Rubem, quando morre, vira árvore em seu pomar. O Rubem as perpetua dessa linda forma).
E ele me disse: -“ Ah, mas eu plantei o João em minha casa”. É como se ele me dissesse, que o João está vivo e bem em sua casa e ao lado dele.
Eu, mesmo sabendo disso, não pude conter a emoção. João foi um grande homem: filósofo, teólogo, educador, comprometido com o povo, cria e praticava a esperança por um mundo melhor, sem contar que foi um grande amor.
Pronto, não havia nada que pudesse quebrar o encanto. Éramos os três ali naquele momento mágico de vida e saudade.
Aí lhe contei, íntimos que ficamos, a minha fantasia tantas vezes revelada ao João Pedro: -“um dia ainda vou beijar o Rubem Alves”. João e eu ríamos muito disso. Ele, em sua sabedoria e sensibilidade, parecia saber que isso iria acontecer, conhecedor da minha impetuosidade.
Claro que quando contei isso ao Rubem, o fiz com coragem, mas com uma dose de timidez, já que nos rodeava grande nuvem de testemunhas. Para disfarçar a timidez, recostei no seu peito (que bom!) e continuei: -“claro que isso não vai acontecer mas acho legal você saber dessa nossa (minha e do João) história”.
O Rubem me superou. Delicadamente levantou minha cabeça, nos olhamos, e ele falou: -“Por que isso não pode acontecer?” E nos beijamos.
Mais um momento ímpar vivido. E vívido. Parecia que o João estava ali sorrindo pra nós, diante da magia do carinho e do cumprimento da minha fantasia.
Foi um momento de mútuo acolhimento, de afeto e cumplicidade diante do amor que une e arrebata as pessoas.
Estava escrito: esse foi o dia de cumprir a minha fantasia.
Ao Rubem todo o meu apreço. Obrigada por esse belo momento de reencontro. Obrigada por você existir e dizer palavras com as quais me alimento. Cuida bem do João em sua casa. Quem sabe um dia, vou visitá-los?! Com carinho, Rute Noemi.
RJ, novembro de 2008.

VUDU HAITI, VUDU OCIDENTE. Alfonso Wieland – Paz y Esperanza Internacional (tradução: Rute Noemi)


Falemos, pois de demônios. Os espanhóis cristãos chegaram a América no fim do século XV, ocupando-a para suas ambições. Começou, então, uma cruel matança por parte de Cristóvão Colombo e sua tropa, contra a população indígena que vivia na ilha onde hoje se encontra a República Dominicana e o Haiti.
Em 1540, a população indígena havia praticamente desaparecido. As enfermidades trazidas pelos europeus, o regime de escravidão a que foram submetidos, as matanças, tudo provocado pelos homens que beijavam a cruz de Cristo, deu causa à matança.
Anos depois, em 1697, os franceses cristãos pegaram da Espanha a metade da ilha e o Haiti recebeu da África, milhares de escravos provenientes da áfrica. Os escravos que iam chegando morriam e eram substituídos por outros escravos. Era um país de jovens recém chegados.
A França da revolução e das liberdades individuais, tinha uma outra forma de ver o mundo no Haiti, cuja cana de açúcar abastecia mesas européias com esse produto.
A independência dos haitianos foi um processo sangrento, sem lampejos de humanidade e quase surreal. Do próprio lado dos dirigentes haitianos, se multiplicaram ditadores, que afundaram mais o país.
Mas se o Haiti pode deixar de ser colônia, não há razão para estar condenada à pobreza extrema. Certamente a má liderança nativa foi uma das causas, mas também a França cristã, que, com uma hipocrisia fora do comum, pediu uma indenização por haver saqueado, escravizado e brutalizado essa pequena nação. A dívida paga em 50 anos, com outros serviços exigidos, foi demasiado pesada para os haitianos e a crise instaurou-se por todos os cantos do país.
Aqui entra em cena os banqueiros (cristãos?) de Nova York que eram os credores da maioria da dívida haitiana e não queriam sofrer um calote. Era o ano de 1915 e o presidente Wilson enviou marines americanos ao Haiti, tomando o controle do país. Eles praticamente governaram o país por mais de 20 anos. A América cristã restabeleceu as levas de jovens para o trabalho forçado e elitizou ainda mais o país, abandonando os pobres à sua própria sorte.
Mas os demônios não têm nacionalidade. Então, em 1957, Francois Duvalier, um dos mais nefastos personagens que a história já viu, aterrorizou o Haiti, fazendo uma mistura insana entre religião e política, o vudu e o poder. E tudo com as bênçãos do governo norte americano.
Duvalier, chamado Papa Doc, deixou o poder e seu sucessor foi Baby Doc, assessorado pelo FMI e apoiado por muitas empresas transnacionais, com filiais no Haiti. Até que em 1986 caiu essa ditadura e foram realizadas novas eleições democráticas sob o olhar internacional.

O resto é história mais recente com Jean Bertrand Aristide na presidência, sua derrocada e sua volta ao poder, sua ligação com Cuba e suas tímidas reformas que não agradaram aos Estados Unidos.
Mas ele tampouco conseguiu: se envolveu num conflito político sangrento com seus opositores. Ele afirma hoje, que não renunciou e sim foi deposto por pressão do país norte americano. Aí vieram as crises econômica, fraude eleitoral, corrupção. Um Estado quase inexistente, uma população de quase 9 milhões de habitantes, num solo de 27 mil metros quadrados de país. Pobreza para todos os lados, instabilidade social e um país quase inviável.
Vários amigos de entidades de cooperação para o desenvolvimento, dizem que as ONGS fazem tarefas que o Estado deveria fazer. Muitas dessas ONGS têm sede permanente no Haiti. O terremoto é uma barreira cruel, dolorosa por certo, à mudança e à paz social que essas entidades tentam apresentar ao devastado Haiti.
O Haiti é um exemplo de como os políticos de carne e osso, e também as nações, se parecem tanto com os demônios. Como dizia Charles Spurgeon, ‘deve-se ensinar aos mesmos demônios sobre quem são e como atua a maldade’. O Haiti não merece essa forma de vida, não merece os milhares de mortos nas ruas em sua história.
Seremos capazes, como cristãos, de fazer algo mais que exorcizar os demônios nos outros sem sequer exorcizar os nossos? Seremos capazes de levar a sério a solidariedade global, deixando de lado diferenças de raça, religião e nação?
O Haiti não necessita de caridade. Necessita de justiça. Parte dela, sem dúvida é que nos levantemos para apoiá-lo em meio à tragédia do desastre natural ocorrido. Mas o que será depois, quando os refletores das câmeras se apagarem e o Haiti não for mais notícia?
Deus nos ajude a ser conseqüentes.