sábado, 23 de janeiro de 2010

VUDU HAITI, VUDU OCIDENTE. Alfonso Wieland – Paz y Esperanza Internacional (tradução: Rute Noemi)


Falemos, pois de demônios. Os espanhóis cristãos chegaram a América no fim do século XV, ocupando-a para suas ambições. Começou, então, uma cruel matança por parte de Cristóvão Colombo e sua tropa, contra a população indígena que vivia na ilha onde hoje se encontra a República Dominicana e o Haiti.
Em 1540, a população indígena havia praticamente desaparecido. As enfermidades trazidas pelos europeus, o regime de escravidão a que foram submetidos, as matanças, tudo provocado pelos homens que beijavam a cruz de Cristo, deu causa à matança.
Anos depois, em 1697, os franceses cristãos pegaram da Espanha a metade da ilha e o Haiti recebeu da África, milhares de escravos provenientes da áfrica. Os escravos que iam chegando morriam e eram substituídos por outros escravos. Era um país de jovens recém chegados.
A França da revolução e das liberdades individuais, tinha uma outra forma de ver o mundo no Haiti, cuja cana de açúcar abastecia mesas européias com esse produto.
A independência dos haitianos foi um processo sangrento, sem lampejos de humanidade e quase surreal. Do próprio lado dos dirigentes haitianos, se multiplicaram ditadores, que afundaram mais o país.
Mas se o Haiti pode deixar de ser colônia, não há razão para estar condenada à pobreza extrema. Certamente a má liderança nativa foi uma das causas, mas também a França cristã, que, com uma hipocrisia fora do comum, pediu uma indenização por haver saqueado, escravizado e brutalizado essa pequena nação. A dívida paga em 50 anos, com outros serviços exigidos, foi demasiado pesada para os haitianos e a crise instaurou-se por todos os cantos do país.
Aqui entra em cena os banqueiros (cristãos?) de Nova York que eram os credores da maioria da dívida haitiana e não queriam sofrer um calote. Era o ano de 1915 e o presidente Wilson enviou marines americanos ao Haiti, tomando o controle do país. Eles praticamente governaram o país por mais de 20 anos. A América cristã restabeleceu as levas de jovens para o trabalho forçado e elitizou ainda mais o país, abandonando os pobres à sua própria sorte.
Mas os demônios não têm nacionalidade. Então, em 1957, Francois Duvalier, um dos mais nefastos personagens que a história já viu, aterrorizou o Haiti, fazendo uma mistura insana entre religião e política, o vudu e o poder. E tudo com as bênçãos do governo norte americano.
Duvalier, chamado Papa Doc, deixou o poder e seu sucessor foi Baby Doc, assessorado pelo FMI e apoiado por muitas empresas transnacionais, com filiais no Haiti. Até que em 1986 caiu essa ditadura e foram realizadas novas eleições democráticas sob o olhar internacional.

O resto é história mais recente com Jean Bertrand Aristide na presidência, sua derrocada e sua volta ao poder, sua ligação com Cuba e suas tímidas reformas que não agradaram aos Estados Unidos.
Mas ele tampouco conseguiu: se envolveu num conflito político sangrento com seus opositores. Ele afirma hoje, que não renunciou e sim foi deposto por pressão do país norte americano. Aí vieram as crises econômica, fraude eleitoral, corrupção. Um Estado quase inexistente, uma população de quase 9 milhões de habitantes, num solo de 27 mil metros quadrados de país. Pobreza para todos os lados, instabilidade social e um país quase inviável.
Vários amigos de entidades de cooperação para o desenvolvimento, dizem que as ONGS fazem tarefas que o Estado deveria fazer. Muitas dessas ONGS têm sede permanente no Haiti. O terremoto é uma barreira cruel, dolorosa por certo, à mudança e à paz social que essas entidades tentam apresentar ao devastado Haiti.
O Haiti é um exemplo de como os políticos de carne e osso, e também as nações, se parecem tanto com os demônios. Como dizia Charles Spurgeon, ‘deve-se ensinar aos mesmos demônios sobre quem são e como atua a maldade’. O Haiti não merece essa forma de vida, não merece os milhares de mortos nas ruas em sua história.
Seremos capazes, como cristãos, de fazer algo mais que exorcizar os demônios nos outros sem sequer exorcizar os nossos? Seremos capazes de levar a sério a solidariedade global, deixando de lado diferenças de raça, religião e nação?
O Haiti não necessita de caridade. Necessita de justiça. Parte dela, sem dúvida é que nos levantemos para apoiá-lo em meio à tragédia do desastre natural ocorrido. Mas o que será depois, quando os refletores das câmeras se apagarem e o Haiti não for mais notícia?
Deus nos ajude a ser conseqüentes.

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