Adélia Prado mais uma vez tem razão! Ela diz, apropriando-se de uma visão taoista: “Tomai cuidado, vossas fantasias se cumprem”. E uma das minhas muitas fantasias se cumpriu: Beijei o Rubem Alves! Não foi um beijo cinematográfico, mas arrebatou-me porque veio somado a diversas reminiscências afetivas e à percepção de que as coisas estão aí para acontecer, e quando elas chegam, devem ser vividas em sua plenitude.
A cena era mais ou menos essa: seminário internacional, teólogos mundialmente conhecidos e entre eles, o Rubem Alves. Precisava vê-lo mais de perto, precisava mostrar-lhe o meu apreço, e mais que isso, precisava dizer-lhe que tínhamos algo em comum além da paixão pela Adélia Prado. Mas como odeio tietagem, odeio alimentar estrelismo (até porque gente é pra brilhar, independentemente de quem seja), fiquei bem quietinha esperando a minha hora.
Depois da conferência saí de cena, pois o palco ficou cheio de gente à cata de fotos e autógrafos. Mas fiquei pensando que deveria me aproximar do Rubem, já que aquele espaço que me é tão familiar e onde já tinha vivido alguns momentos ímpares, seria propício para encontrar-me com ele e sentia, de maneira avassaladora, que aquele era o dia.
Resolvi voltar e fiquei observando o movimento. De repente, saiu do meio daquela pequena multidão e, melhor ainda, sozinho, aquele que iria proporcionar o cumprimento de uma de minhas fantasias. Saí atrás dele certa de que ninguém me observava (todos os olhares se voltavam para o grande convidado da noite) e chamei o seu nome.
Ele olhou para mim com um olhar meio desconfiado, olhar de estrela (ele tem um pouco isso, o que acho feio e desnecessário, mas isso é problema dele). Mas eu sabia o que estava fazendo ali. Olhei-o nos olhos e com ar maroto lhe perguntei de pronto: -“Você quer casar comigo?”
Por um segundo ele ficou meio que sem ação com a minha pergunta. Mas se recompôs e me respondeu também brincando, e iniciamos assim, um diálogo.
Disse-lhe então a frase que seria o nosso elo: -“temos alguém em comum. Sou ex-companheira do João Pedro de Aguiar. Nesse momento seus olhos brilharam. Sim, ele conhecia o João Pedro de Aguiar. Tanto, e eram tão queridos, que quando o João Pedro faleceu, o Rubem o plantou em seu pomar (explico: Toda pessoa querida do Rubem, quando morre, vira árvore em seu pomar. O Rubem as perpetua dessa linda forma).
E ele me disse: -“ Ah, mas eu plantei o João em minha casa”. É como se ele me dissesse, que o João está vivo e bem em sua casa e ao lado dele.
Eu, mesmo sabendo disso, não pude conter a emoção. João foi um grande homem: filósofo, teólogo, educador, comprometido com o povo, cria e praticava a esperança por um mundo melhor, sem contar que foi um grande amor.
Pronto, não havia nada que pudesse quebrar o encanto. Éramos os três ali naquele momento mágico de vida e saudade.
Aí lhe contei, íntimos que ficamos, a minha fantasia tantas vezes revelada ao João Pedro: -“um dia ainda vou beijar o Rubem Alves”. João e eu ríamos muito disso. Ele, em sua sabedoria e sensibilidade, parecia saber que isso iria acontecer, conhecedor da minha impetuosidade.
Claro que quando contei isso ao Rubem, o fiz com coragem, mas com uma dose de timidez, já que nos rodeava grande nuvem de testemunhas. Para disfarçar a timidez, recostei no seu peito (que bom!) e continuei: -“claro que isso não vai acontecer mas acho legal você saber dessa nossa (minha e do João) história”.
O Rubem me superou. Delicadamente levantou minha cabeça, nos olhamos, e ele falou: -“Por que isso não pode acontecer?” E nos beijamos.
Mais um momento ímpar vivido. E vívido. Parecia que o João estava ali sorrindo pra nós, diante da magia do carinho e do cumprimento da minha fantasia.
Foi um momento de mútuo acolhimento, de afeto e cumplicidade diante do amor que une e arrebata as pessoas.
Estava escrito: esse foi o dia de cumprir a minha fantasia.
Ao Rubem todo o meu apreço. Obrigada por esse belo momento de reencontro. Obrigada por você existir e dizer palavras com as quais me alimento. Cuida bem do João em sua casa. Quem sabe um dia, vou visitá-los?! Com carinho, Rute Noemi.
RJ, novembro de 2008.
2 comentários:
Fiquei profundamente emocionada, com a história e com o que vc falou sobre o JP...obrigada!
Ele meu contou da árvore logo que pa plantou; achei maravilhosa a forma que ele arranjou para perpetuar os amigos ao seu lado, cuidando deles! É a cara do Rubem! Tudo de bom esse cara!
É isso mesmo: QUE BOM QUE ELE EXISTE!!
Bjim no seu coração!
Vamos deixar claro alguns fatos sobre seu relato!
1- Não estava sozinho, estava tirando uma dúvida minha!
2- Todos os olhares estavam para o Junger Moltmann, o meu para a sua bela e apaixonante cara-de-pau;
3- Eu vi o beijo e ouvi a conversa pq foi na minha frente!
4- Eu achei muito bonitinho;
5- Depois ele ainda tirou minha dúvida;
6- Você me pediu pra não contar nada a ninguém pq era um "amor antigo". rsrsrs
7- Agora estou livre da promessa e posso falar: "EU VI!!!!"
Amei o texto! E sim, nossas fantasias podem se realizar, sou testemunha da sua!
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